Dois novos casos de remissão prolongada do HIV foram apresentados durante a 26ª Conferência Internacional sobre Aids, realizada no Rio de Janeiro. Os pacientes interromperam o uso de medicamentos antirretrovirais após receberem transplantes de células-tronco e, até o momento, seguem sem sinais detectáveis de replicação do vírus.
Identificados como Paciente Ascent e Paciente de Kansas City, os dois casos elevam para 13 o número de pessoas consideradas curadas ou em remissão sustentada do HIV após procedimentos semelhantes. Os resultados representam um avanço importante para a ciência, mas pesquisadores mantêm cautela porque o período de acompanhamento sem os medicamentos ainda é relativamente curto.
A Conferência Internacional sobre Aids ocorre entre os dias 26 e 31 de julho de 2026, no Riocentro, e reúne pesquisadores, profissionais de saúde, representantes de governos, organizações sociais e pessoas que vivem com HIV. Esta é a primeira vez que o maior encontro mundial dedicado ao tema é realizado na América do Sul.
Paciente de Kansas City está há 14 meses sem antirretrovirais
O Paciente de Kansas City é um jovem norte-americano de 21 anos. Ele recebeu o diagnóstico de HIV em 2018, quando a infecção já se encontrava em estágio avançado, e iniciou rapidamente o tratamento antirretroviral, conseguindo controlar a multiplicação do vírus.
Cerca de dois anos depois, o paciente desenvolveu uma leucemia aguda. Para tratar o câncer, foi submetido, em 2020, a um transplante de células-tronco de uma doadora compatível que apresentava duas cópias de uma alteração genética rara conhecida como CCR5 delta 32.
O CCR5 é uma proteína localizada na superfície de determinadas células do sistema imunológico. Muitas variantes do HIV utilizam essa estrutura como uma porta de entrada para infectar as células. Quando uma pessoa apresenta duas cópias da mutação CCR5 delta 32, essa porta deixa de funcionar adequadamente, tornando as células naturalmente resistentes às formas mais comuns do vírus.
O transplante substituiu progressivamente o sistema imunológico do paciente por células provenientes da doadora. Ao mesmo tempo, o tratamento realizado contra a leucemia ajudou a eliminar grande parte das células que poderiam abrigar o HIV.
Em fevereiro de 2025, após avaliações médicas e sob acompanhamento rigoroso, o jovem interrompeu o tratamento antirretroviral. Quatorze meses depois, o HIV continuava indetectável no sangue. Os pesquisadores também não encontraram vírus capaz de se multiplicar nem evidências de que o paciente estivesse tomando antirretrovirais sem informar a equipe.
Apesar do resultado, os cientistas ainda preferem classificar o caso como uma remissão prolongada sem tratamento. Isso ocorre porque o HIV pode permanecer escondido em reservatórios localizados em tecidos e órgãos que não são completamente avaliados pelos exames de rotina.
Paciente Ascent apresentou quadro ainda mais complexo
O segundo caso, conhecido como Paciente Ascent, envolvia uma pessoa que vivia simultaneamente com HIV e hepatite B e que precisou receber um transplante de células-tronco para tratar uma doença hematológica grave.
O doador também apresentava duas cópias da mutação CCR5 delta 32. Entretanto, antes do procedimento, os exames mostravam que o HIV presente no organismo do paciente tinha tropismo misto. Isso significa que o vírus poderia utilizar não apenas o receptor CCR5, mas também outra estrutura chamada CXCR4 para entrar nas células.
A característica gerava dúvidas sobre a possibilidade de a mutação do doador ser suficiente para impedir o retorno do vírus. Mesmo assim, os resultados após o transplante foram considerados altamente promissores.
Mais de quatro anos depois do procedimento, o tratamento antirretroviral foi suspenso sob supervisão médica. Após 12 meses, a carga viral permanecia indetectável. Foram encontradas apenas quantidades muito pequenas de material genético do HIV, sem evidências de vírus intacto e capaz de se multiplicar.
Biópsias realizadas no intestino e no reto também não identificaram vírus intacto. Esses tecidos são particularmente importantes porque o sistema digestivo representa um dos principais reservatórios do HIV no organismo.
A interrupção dos antirretrovirais, porém, provocou a reativação da hepatite B em apenas 25 dias. Isso aconteceu porque alguns dos medicamentos utilizados para controlar o HIV também atuavam contra o vírus da hepatite. O paciente precisou iniciar um tratamento específico para conter a nova multiplicação do vírus.
Por que os pesquisadores ainda evitam falar em cura definitiva
Os dois pacientes estão sem medicamentos e sem carga viral detectável há mais de um ano. Mesmo assim, ainda não é possível garantir que todas as células infectadas tenham sido eliminadas.
O HIV consegue inserir seu material genético no DNA das células do sistema imunológico e permanecer inativo durante anos. Esses reservatórios podem estar presentes no intestino, nos linfonodos, na medula óssea e em outras partes do organismo.
Atualmente, não existe um exame capaz de verificar todas as células e todos os tecidos de uma pessoa. Por esse motivo, os especialistas costumam utilizar expressões como remissão sustentada, remissão sem tratamento ou possível cura. O acompanhamento precisa continuar para verificar se o vírus permanecerá controlado no longo prazo.
Os pacientes não devem interromper os antirretrovirais por conta própria. Na grande maioria das pessoas, o HIV volta a se multiplicar rapidamente quando o tratamento é suspenso. Qualquer interrupção precisa ocorrer exclusivamente em pesquisas clínicas e com acompanhamento médico especializado.
Transplante não é uma cura aplicável a todas as pessoas
Todos os casos conhecidos de remissão do HIV após transplantes envolveram pacientes que também enfrentavam leucemias, linfomas ou outras doenças graves do sangue. Os transplantes foram realizados para tratar essas condições potencialmente fatais, e não exclusivamente para eliminar o HIV.
Antes do procedimento, o paciente precisa receber tratamentos intensivos para destruir grande parte de sua medula óssea e de seu sistema imunológico. Depois do transplante, há riscos de rejeição, infecções graves, danos a órgãos, doença do enxerto contra o hospedeiro e morte.
Além disso, encontrar uma pessoa geneticamente compatível que também possua duas cópias da rara mutação CCR5 delta 32 é extremamente difícil. Por essas razões, os riscos do procedimento são muito maiores do que os possíveis benefícios para uma pessoa que controla o HIV normalmente com medicamentos.
Os casos funcionam principalmente como uma prova de que a remissão é biologicamente possível. A partir deles, os pesquisadores tentam identificar quais mecanismos eliminaram os reservatórios virais e como reproduzir esse efeito sem a necessidade de um transplante.
Entre as estratégias atualmente investigadas estão terapias gênicas para modificar o receptor CCR5, células CAR T programadas para reconhecer células infectadas, anticorpos amplamente neutralizantes, vacinas terapêuticas e medicamentos capazes de localizar e eliminar os reservatórios do HIV.
Tratamento atual permite vida saudável e impede transmissão sexual
Os resultados apresentados no Rio não alteram as orientações destinadas às pessoas que vivem com HIV. Os antirretrovirais continuam sendo o tratamento seguro e disponível para impedir a multiplicação do vírus, proteger o sistema imunológico e evitar o desenvolvimento da aids.
Quando o tratamento é seguido corretamente e a carga viral permanece indetectável, não existe risco de transmissão sexual do HIV. Esse princípio é conhecido como indetectável igual a intransmissível. No Brasil, os medicamentos e o acompanhamento são oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde.
Em 2025, aproximadamente 40,9 milhões de pessoas viviam com HIV no mundo, segundo o UNAIDS. Cerca de 32,1 milhões tinham acesso ao tratamento antirretroviral. Diante dessa dimensão, os 13 casos de remissão após transplantes ainda representam situações extremamente raras.
Os novos resultados, portanto, não significam que uma cura ampla e acessível já esteja disponível. Eles mostram, no entanto, que eliminar ou controlar o HIV sem medicamentos pode ser biologicamente possível e oferecem novas pistas para a criação de terapias mais seguras no futuro.

